Dia 2 – O dia mais puxado da trilha: Querendo alcançar o Salkantay


Lá no alto, o desafiante Salkantay. Os nevados eram apus sagrados para os incas. Respeitavam muito essas montanhas que os proviam de água.

 O nevado de Salkantay fica a 6.271 m de altitude e 2540 m de proeminência topográfica. A montanha pertence à Cordilheira de Vilcabamba e é o ponto máximo dessa cordilheira. Quando você está no avião, atravessando a cordilheira, é uma das coisas lindas que pode-se observar. Quando está em terra, parece a Monalisa, não pára de te olhar, parece que está “aquicito no más” como dizem os peruanos, que significa algo como: logo aqui, só que quanto mais se caminha, em direção a ele, parece que ele se isola mais.

Acordamos às 4 da manhã com aquela infusão de coca na nossa barraca nos esperando. O guia nos disse que teríamos que subir o Salkantay. Na realidade, subir significava chegar no caminho mais próximo ao Salkantay (a Abra do Salkantay). Parecia mais um dia de trekking comum, afinal já estávamos acostumados. A lagoa de Humantay era a referência.

Fizemos uma oração, comandada pelo Padre Luiz e iniciamos a subida. Atrás de nós, os cavalos e as nossas coisas. Completavam a expedição, o cozinheiro, seu ajudante e o cuidador de cavalos.


Só o guia sabia o que nos esperava nessa subida.

O caminho íngreme e, sem muita graça, parecia não acabar. Era subida direta, pedras e vegetação dos andes. Os cavalos, apesar de conhecerem o lugar, tinham dificuldade para subir por pequenos espaços. O cansaço era inevitável, a falta de oxigênio também. O frio incomodava assim como a chuva fina que cismava em ser intermitente. Porém, aquele pico branco nos olhando era a nossa motivação principal.

– Falta pouco disse o guia,

– Quanto? perguntamos,

– A metade!

Resposta esperada!

Conforme íamos subindo, parecia que o oxigênio nos fazia ver alucinações. Como por exemplo, vacas penduradas no meio das montanhas.

Como é possível? Nos perguntávamos.

Achávamos que eram cabras, mas eram vacas e não eram alucinações.

A caminhada começava a ficar pesada, não havia hora para chegar na Abra do Salkantay, também não víamos ninguém voltar. Era, literalmente, uma viagem sem volta.


Na subida ao Salkantay, até os cavalos sofrem.

Ficamos mais de 3 horas subindo, passamos por vários lagos e pampas, e chegamos à Abra.

Quando chegamos à Abra, o pico estava todo coberto pelas nuvens, parecia um pouco a paisagem que vimos na montanha colorida. Pensávamos que os Apus não queriam se mostrar para nós. O guia nos explicou que para os incas os nevados eram sagrados. Eles eram protetores das cidades, a representação das nuvens era fertilidade que depois se convertia em água e abençoava seus cultivos. Explicava Joselo, que não havia construções incas perto dos nevados porque eles respeitavam muito esses gigantes e não colocavam suas moradias por veneração. Ainda, numa narrativa mais mística, Joselo nos disse que nas noites, escutam-se choros e lamentos de mortos “amaldiçoados” que pretendem subir, sem sucesso, a montanha, para se salvarem. O guia, com seriedade, nos afirmava que as pessoas que moravam perto, escutavam esses lamentos.

Descansamos, fizemos oração ao Apu Salkantay e, com mais respeito, seguimos o caminho em descendente. Tínhamos mais umas horas de caminhada até chegar a Wayraqmachay, lugar onde almoçaríamos.


Depois de uma batalha intensa, chegamos no ponto mais alto da Abra do Salkantay 4.800 m.s.n.m.

Tempo de agradecer e pedir pelos que mais amamos. Prece inca com folhas de coca.

O caminho era de descida. De 4.800 m.sn.m. desceríamos para 3.900. O cansaço passava a tomar conta do corpo, as pernas já estavam bambas, as palavras e a conversa entre nós era desnecessária, mal podíamos lidar com a nossa respiração, assim como era inócuo perguntar pro Joselo, quanto tempo faltava.

Cavalos iam e vinham carregados. Passavam rente a nós. Havia muitos estrangeiros que passavam em velocidade, fazendo-se valer dos seus dois bastões, parecia que estavam esquiando o terreno cheio de pedras e desníveis. Alguns deles usavam sandálias de trekking, sem meias.

O grupo começava a separar-se. Na frente o guia e os que decidiam acompanhá-lo, lá atrás os que respeitavam suas limitações físicas e andavam no seu ritmo. O que importava é que todos chegaríamos ao mesmo lugar, cada um com suas lutas pessoais e superações particulares, ninguém querendo ser melhor do que ninguém.

Passaram-se as horas, os relógios não eram mais consultados, o que importava era saber se estávamos perto das metas. A meta imediata era o lugar onde almoçaríamos e descansaríamos. Não importava mais nada.

Colocamos os corpos em “modo automático”, mas havia uma coisa que nos chamava a atenção. Como nós sofríamos tanto assim para percorrer esses lugares se havia crianças da região que, parecia estavam indo para a escola, e não mostravam nenhum tipo de esforço para isso.

Atrás de nós, tinha uma senhora com roupas típicas da região. De sandálias de borracha, sem meias, de saia e sem casaco. Ela nos acompanhou por uns minutos, mas depois, ao ver que não podíamos acompanhar o seu ritmo, avançou com uma velocidade impressionante. Parecia também que estava brincando de andar. Enquanto isso, nós sorteávamos as pedras, muitas vezes pisávamos em buracos e tropeçávamos em obstáculos.

Paramos, andamos, sofríamos sempre, mas, chegamos ao nosso intermediário, Wayraqmachay, onde almoçaríamos.

Parada para o almoço, depois de uma árdua caminhada, porém, ainda faltava mais trilha.

 Nessa base, os nossos queridos cozinheiros nos esperariam. Com um almoço gostoso, feito com muito carinho pelo Robert e o Jhonatan, para recuperar as nossas forças.

Almoçamos e continuamos a trilha. Pareceria que nunca iria terminar. Já eram mais de 15 horas, desde que saímos da nossa base em Soraypampa. Entramos no modo zumbi, aquele em que você não pensa, só se “arrasta”. Apesar do cansaço, começamos a perceber uma mudança na paisagem, ela começou a ficar mais verde. Era a paisagem da selva cusquenha nos recebendo. Isso queria dizer que estávamos próximos a Machu Picchu!

Depois de andar por vinte horas, mais de 25 km, de cair e levantar, de pegar chuva e frio, chegamos a Chaullay, onde dormiríamos.

A chegada foi uma comemoração especial, a sensação foi de ter vencido uma maratona, a nossa maratona pessoal, talvez a mais forte, a mais longa, a mais desafiadora e a mais importante desses dias.

O acampamento tinha internet e banho quente. Nada como uns bons vinhos para comemorar essa feita.

No dia seguinte nos esperaria uma caminhada em direção a Santa Teresa, lugar dos banhos termais e da, quase, civilização, bem perto da nossa meta, nosso Apu Machu Picchu!

A seguir… Dia de lavar a alma e o corpo.

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